Saúde mental desafia políticas públicas
Em meio a avanços médicos que lembram cenários de ficção científica, uma ameaça silenciosa continua a se expandir: o adoecimento mental. Alimentado por estigmas, desinformação e falta de políticas eficazes, o problema se consolidou como um dos maiores desafios globais da atualidade, gerando impactos profundos tanto na vida das pessoas quanto na economia. Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que cerca de 15% da população mundial convive com algum transtorno mental — proporção semelhante à dos casos de hipertensão arterial. Apenas a depressão e a ansiedade, que lideram as estatísticas, provocam prejuízos anuais próximos a US$ 1 trilhão em todo o mundo.
No Brasil, os números reforçam a gravidade do cenário. Levantamento divulgado pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt) mostra que, entre 2023 e 2025, o número de trabalhadores afastados por transtornos mentais aumentou pelo menos 79%, saltando de 219,8 mil para 393,6 mil casos — ainda sem a inclusão dos dados do INSS referentes a dezembro do ano passado. Em 2025, os transtornos de ansiedade responderam por cerca de 40% dos afastamentos, o que representa aproximadamente 430 ocorrências por dia. A depressão, no mesmo período, registrou média diária de 166 afastamentos.
Os efeitos do adoecimento psíquico ultrapassam o ambiente de trabalho e alcançam gerações mais jovens. Crianças e adolescentes, que sequer ingressaram no mercado profissional, formam hoje o grupo mais diagnosticado com transtornos mentais da história. Entre 2014 e 2024, o número de atendimentos no Sistema Único de Saúde a crianças de 10 a 14 anos por transtornos de ansiedade cresceu 12 vezes. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, o aumento foi ainda mais expressivo, chegando a 33 vezes.
Especialistas apontam que enfrentar esse quadro exige romper o silêncio e ampliar o debate público, permitindo intervenções precoces e ações capazes de evitar o agravamento dos transtornos. A prevenção deve ser contínua e começar ainda na infância, avançando pela adolescência, vida adulta e envelhecimento, com iniciativas integradas nos ambientes escolar, familiar e de trabalho.
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