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Meu filho adolescente não sai do quarto: devo me preocupar?

O que merece atenção são as mudanças significativas no comportamento.
Crédito: O que merece atenção são as mudanças significativas no comportamento.

Comportamento alarma os pais, mas pode ser uma fase natural do crescimento

A cena é familiar em muitas casas: a porta fechada, o som de vídeos ou jogos vindo lá de dentro e a sensação dos pais de que o filho adolescente está cada vez mais distante. O comportamento geralmente alarma os pais, mas existe realmente um motivo de preocupação? A resposta é: nem sempre.

O professor de Psicologia da Estácio, Erickson Carvalho, explica que a adolescência é uma fase marcada pela busca de autonomia e pela construção da própria identidade. Essa necessidade de recolhimento, segundo o especialista, faz parte do desenvolvimento saudável de muitos adolescentes e nem sempre é sinal de tristeza, rebeldia ou depressão.

“O quarto deixa de ser apenas um cômodo da casa e passa a funcionar como um espaço de privacidade e segurança. É onde o jovem encontra liberdade para refletir sobre suas mudanças, seus interesses e suas emoções”, ressalta.

Nem todo isolamento é sofrimento

Embora o hábito de passar longos períodos sozinho possa despertar preocupação, a escolha de ficar no próprio quarto não significa necessariamente que o jovem esteja enfrentando um problema emocional.

Erickson destaca que existe uma diferença importante entre isolamento e solitude. Enquanto o primeiro pode estar associado ao sofrimento psicológico, a solitude representa uma necessidade saudável de estar consigo mesmo.

“Alguns adolescentes simplesmente precisam de mais momentos de recolhimento para descansar das demandas sociais, organizar pensamentos ou se dedicar aos próprios interesses. Isso é diferente de um quadro de adoecimento emocional”, afirma.

Além disso, características de personalidade também influenciam esse comportamento. Jovens mais introvertidos, por exemplo, costumam valorizar mais o tempo sozinhos sem que isso represente qualquer problema.

Diante da preocupação, muitos pais recorrem à estratégia mais intuitiva: insistir para que o filho saia do quarto. Mas essa abordagem não só pode não funcionar como até mesmo contribuir para aumentar o distanciamento..

“Quando o adolescente sente que seu espaço está sendo invadido, a tendência é se fechar ainda mais. Em vez de construir proximidade, o conflito acaba fortalecendo as barreiras”, explica.

O PAPEL DAS TELAS

As redes sociais, os jogos online e as plataformas digitais também ajudam a explicar por que muitos adolescentes parecem preferir o quarto à sala de estar. Mas, ao contrário do que muitos pais imaginam, estar sozinho no quarto não significa necessariamente estar desconectado do mundo.

“Hoje, as telas funcionam como verdadeiras praças públicas virtuais. É por meio delas que muitos adolescentes conversam com amigos, compartilham experiências, participam de grupos e desenvolvem interesses”, observa o psicólogo. O alerta, segundo ele, aparece apenas quando o ambiente virtual passa a substituir completamente as experiências presenciais e as relações do dia a dia.

ALERTA

O tempo passado no quarto, por si só, não é o principal indicador de que algo está errado. O que merece atenção são as mudanças significativas no comportamento.

Os pais devem observar se o adolescente passou a abandonar atividades de que gostava, afastou-se dos amigos, apresentou queda persistente no desempenho escolar ou mudanças importantes no sono e na alimentação. Outros sinais preocupantes incluem descuido com a higiene pessoal, irritabilidade excessiva, agressividade frequente ou uma apatia incomum.

“Nesses casos, o quarto deixa de ser um refúgio saudável e passa a funcionar como um esconderijo para um sofrimento que precisa ser acolhido e compreendido”, alerta Erickson.

Para fortalecer o vínculo, o caminho mais eficaz costuma ser o da aproximação gradual e sem pressão. O psicólogo recomenda que os pais demonstrem interesse genuíno pelos assuntos que fazem parte do universo dos filhos. Perguntar sobre um jogo, assistir a um vídeo recomendado pelo adolescente ou simplesmente compartilhar uma refeição sem exigir grandes conversas pode ser um bom começo.

“Os adolescentes se aproximam quando sentem que estão sendo ouvidos e respeitados. O vínculo é reconstruído aos poucos, em momentos simples e leves, que mostram que a família continua sendo um lugar seguro para estar”, conclui.

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